Abrir uma conta bancária nunca foi tão fácil, conseguir que o banco lhe empreste dinheiro continua a ser outra história. E talvez seja aqui que esteja uma das maiores ilusões da inclusão financeira, confundir, estar dentro do sistema financeiro com conseguir beneficiar verdadeiramente dele.
Ter conta, cartão, aplicativo, IBAN e fazer transferências significa que alguém está bancarizado, mas nada disso garante que, amanhã, essa mesma pessoa consiga crédito para comprar uma casa, financiar um negócio ou investir na sua formação. A diferença parece pequena, economicamente, é gigantesca.
Imagine uma empresa que movimenta milhões de kwanzas pelo banco. Recebe dos clientes, paga fornecedores, salários e impostos. Aos olhos do empresário, anos de movimentação deveriam ser suficientes para provar que o negócio existe.Mas quando pede financiamento, começa outro exame:
Onde estão as demonstrações financeiras? Quanto gera realmente o negócio? Qual é o fluxo de caixa? Quanto já deve? Consegue pagar uma nova dívida? Que garantias apresenta?
É nesse momento que muitos empresários descobrem uma verdade desconfortável,o banco pode conhecer o seu dinheiro e, ainda assim, não conhecer suficientemente o seu risco.
E banco não financia apenas movimento, financia capacidade credível de pagamento.
Uma empresa pode vender muito e continuar pouco financiável. Pode ter clientes e não ter contas organizadas. Pode facturar milhões e misturar dinheiro da empresa com dinheiro dos sócios. Pode crescer em volume e continuar frágil em informação financeira.
O problema, portanto, não é apenas colocar mais pessoas e empresas dentro dos bancos.
É preciso transformar bancarizados em financiáveis.Essa mudança de perspectiva é decisiva para Angola.
Inclusão financeira não pode ser comemorada apenas pelo número de contas abertas, cartões emitidos ou utilizadores de canais digitais. Precisamos de fazer perguntas mais difíceis:
Quantos conseguem crédito? Quantas pequenas empresas conseguem financiar equipamentos? Quantos jovens empreendedores conseguem transformar uma boa idéia num negócio financiável? Quantas famílias conseguem financiar uma casa sem destruir o orçamento familiar?
Porque o crédito responsável não nasce da vontade de emprestar, nasce da capacidade de demonstrar que o dinheiro pode regressar. Por isso, a solução também não está em obrigar bancos a abrir indiscriminadamente a torneira do crédito, crédito sem análise não é inclusão financeira. É risco adiado.
O caminho passa por melhorar a informação financeira das empresas, fortalecer a contabilidade, aumentar a formalização, construir histórico financeiro, melhorar a gestão do fluxo de caixa e elevar a educação financeira de famílias e empresários.
E passa igualmente por desafiar os bancos a desenvolver mecanismos de análise capazes de compreender melhor pequenos negócios, empreendedores e novos modelos empresariais, sem abandonar os princípios essenciais de gestão do risco.
O verdadeiro avanço acontecerá quando abrir uma conta deixar de ser o ponto de chegada e passar a ser apenas o começo. Porque ter conta bancária significa entrar no sistema. Ter capacidade de financiamento significa conseguir usar o sistema para crescer.
E talvez a pergunta mais incómoda seja esta no seguinte, de que serve colocar milhões de pessoas dentro do sistema financeiro se, quando precisam de financiar o seu futuro, descobrem que continuam do lado de fora?
Esta é a distância que precisamos de encurtar. A distância entre bancarizar e financiar, entre movimentar dinheiro e construir credibilidade, entre ter acesso ao banco e ter acesso às oportunidades.
Kwanza 360 | Educação financeira para transformar acesso em oportunidade.