Quando depositamos 100 mil kwanzas num banco, é natural imaginar que aquele dinheiro fica guardado à nossa espera, talvez num cofre, até ao dia em que decidirmos levantá-lo. Mas a realidade bancária é muito mais interessante.
Ao fazer um depósito, o cliente entrega recursos ao banco e passa a ter um direito sobre a instituição financeira. Do ponto de vista do balanço do banco, o depósito representa uma responsabilidade perante o cliente. Ou seja, o saldo que vemos na conta é também uma obrigação do banco para connosco, esta mudança de perspectiva é fundamental para compreender a banca moderna.
O banco não é simplesmente um cofre
Os bancos recebem depósitos, fazem pagamentos, gerem liquidez, mantêm reservas e outros activos e financiam famílias e empresas. O sistema bancário transforma, portanto, recursos financeiros em capacidade de financiamento da economia.
Mas existe um detalhe ainda mais fascinante, seria impreciso afirmar simplesmente que o banco pega no dinheiro de quem deposita e empresta-o a outra pessoa.
Na banca moderna, a concessão de crédito também cria depósitos. Quando um banco concede determinado empréstimo, normalmente regista simultaneamente um activo, que é o crédito que tem a receber, e um passivo, correspondente ao depósito criado na conta do beneficiário. A criação de moeda no sistema financeiro está, por isso, intimamente ligada à concessão de crédito, conforme explica o Bank for International Settlements.
É aqui que começamos a perceber que um banco não é apenas um intermediário entre quem tem dinheiro e quem precisa dele. É uma instituição que participa activamente na circulação do dinheiro e do crédito.
Então o banco pode criar dinheiro ilimitadamente? Não.
Esta é outra interpretação que precisa de ser evitada. A capacidade de conceder crédito encontra limites económicos, prudenciais e financeiros. Um banco precisa de gerir capital, liquidez, riscos, financiamento e capacidade de cumprir as suas obrigações.
Além disso, conceder crédito sem avaliar correctamente a capacidade de pagamento do devedor pode transformar um activo rentável numa perda. É exactamente aqui que encontramos uma das funções económicas mais importantes da banca, decidir quem merece receber capital, em que montante, por quanto tempo e a que preço.
Uma decisão de crédito não afecta apenas o banco e o cliente. Quando multiplicada por milhares de operações, influencia investimento, consumo, emprego, actividade empresarial e a própria circulação monetária.
E quando transferimos o dinheiro?
Se o cliente utilizar o saldo para pagar alguém noutro banco, entra em funcionamento a infraestrutura de pagamentos e liquidação entre instituições. Assim, por detrás de uma simples transferência feita pelo telemóvel existe uma arquitectura financeira que permite que os valores circulem entre bancos.
É também por isso que liquidez importa tanto quanto rentabilidade. Um banco pode possuir activos valiosos e, ainda assim, necessita de capacidade para responder às saídas de fundos e às suas obrigações.
A verdadeira transformação
Quando depositamos dinheiro, não estamos apenas a colocá-lo num local seguro. Estamos a estabelecer uma relação financeira com uma instituição que integra esse depósito num sistema de pagamentos, liquidez, financiamento e gestão de risco.
E quando o crédito entra nesta equação, acontece algo ainda mais poderoso, o sistema bancário deixa de ser apenas o lugar onde o dinheiro circula e passa a ser um dos mecanismos através dos quais novos depósitos monetários são criados.
Compreender isto muda a forma como olhamos para um banco.
O balcão, a aplicação e o cartão são apenas a superfície. Por baixo deles existe uma enorme engenharia de confiança.
Porque, no fim, a matéria-prima mais importante de um banco não é o dinheiro. É a confiança de que conseguirá honrar as obrigações que assumiu.
Kwanza 360 | Educação financeira para compreender o dinheiro antes de decidir o que fazer com ele.