Vender muito é motivo de orgulho, mas pode também criar uma perigosa ilusão, a de que uma empresa com elevada facturação está automaticamente preparada para receber financiamento.Não está.
Uma empresa pode apresentar clientes, contratos, encomendas e milhões de kwanzas em vendas e, ainda assim, não conseguir convencer um banco. Porque, para quem financia, movimento não significa necessariamente solidez.
Vendas demonstram actividade,caixa demonstra capacidade de pagamento.
Este é um dos pontos que muitos empresários ignoram quando procuram crédito. Apresentam a facturação como prova suficiente da força do negócio, quando o financiador precisa de respostas para questões mais profundas do tipo quanto a empresa recebe efectivamente? Quanto gasta? Quanto deve? Quanto retém? E, depois de cumprir as obrigações existentes, quanto dinheiro sobra para pagar uma nova dívida?
Facturação não é lucro, lucro não é caixa e crescimento não é sinônimo de equilíbrio financeiro.
Uma empresa pode facturar 500 milhões de kwanzas por ano e continuar sem liquidez. Basta que venda a crédito, receba tarde, suporte custos elevados, mantenha stocks sem rotação ou permita que os sócios utilizem recursos da empresa para despesas particulares.
Por fora, parece um negócio próspero. Por dentro, pode estar financeiramente sufocado.
É por isso que duas empresas com o mesmo volume de vendas podem receber decisões de crédito completamente diferentes. Uma apresenta contabilidade organizada, fluxo de caixa previsível, impostos regularizados, endividamento controlado e gestão disciplinada. A outra apresenta números incompletos, contas misturadas, dívidas acumuladas e nenhuma explicação convincente sobre o destino do dinheiro.
As duas vendem. Mas apenas uma transmite confiança.
Ser financiável não significa apenas possuir garantias. Um imóvel pode proteger parcialmente o banco em caso de incumprimento, mas não substitui a capacidade de pagamento. O crédito saudável deve ser reembolsado pelo dinheiro gerado pela actividade, e não pela venda forçada do património da empresa.
Por isso, a pergunta mais inteligente não é quanto a minha empresa vende?
É esta, depois de pagar fornecedores, salários, impostos e outras dívidas, quanto dinheiro permanece disponível para pagar o financiamento?
A resposta revela mais sobre a saúde do negócio do que qualquer número de facturação apresentado isoladamente.
A capacidade ou condição de um projeto, empresa ou produtor de obter recursos e crédito junto a instituições financeiras começa muito antes do pedido de crédito. Começa quando a empresa separa as contas dos sócios, regista correctamente as operações, controla custos, acompanha recebimentos, gere stocks, prepara orçamentos e conhece as suas margens.
Também exige clareza sobre a utilização do dinheiro. Crédito para tesouraria, compra de equipamentos ou expansão não deve ter o mesmo prazo nem a mesma estrutura. Quando o financiamento não acompanha o ciclo económico do investimento, até uma empresa viável pode entrar em incumprimento.
O grande desafio das empresas angolanas não é apenas conseguir mais crédito. É construir negócios que mereçam crédito formais, transparentes, disciplinados e capazes de apresentar números que resistam a perguntas difíceis.
O banco pode financiar uma necessidade. Mas não pode substituir gestão, estratégia, controlo e boa governação.
Vender abre portas, gerar caixa mantém a empresa viva, demonstrar capacidade de pagamento cria confiança. E a confiança continua a ser a verdadeira moeda do financiamento.
Antes de pedir crédito, prepare a sua empresa para merecê-lo. Porque nem toda empresa que vende é financiável. Mas toda empresa bem gerida pode tornar-se financiável.
Kwanza 360 | Transformamos conhecimento financeiro em decisões que criam valor.